sábado, 6 de junho de 2009

CMVM e o mercado de analistas

A discussão que me prendeu esta semana no Caldeirão foi sem duvida a noticia de que a CMVM proibiu uma casa de investimento de emitir análises sobre as acções do PSI 20.

E porque foi isto? Qualquer pessoa de bom senso associaria logo a dita casa de investimento a burlas, inside trading ou qualquer outro esquema onde enganavam os seus clientes num qualquer caso lusitâno inspirado na Segurança Social, perdão, em Madoff mas não - as razões da CMVM foram outras:

A Comissão de Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) proibiu uma casa de investimento, não identificada, de emitir notas de análise por não ter pessoal qualificado e em “quantidade suficiente” para o número de empresas que é acompanhado. E enquanto esta situação se mantiver, a suspensão será mantida.

Horas depois veio a confirmação no Jornal de Negócios:
A Lisbon Brokers é o intermediário financeiro que foi proibido pela Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) de emitir notas de análise financeira, apurou o Negócios.
[...]
A decisão é justificada com a existência de “deficiências técnicas identificadas na produção de recomendações”. O regulador diz que a suspensão do “research” da Lisbon Brokers irá manter-se enquanto a corretora não tomar medidas, que passam pela sua “sua dotação de recursos humanos qualificados e em quantidade suficiente face ao número de empresas e sectores de actividade objecto de análise”

De acordo com os dados da Bloomberg, a Lisbon Brokers elabora “research” para 14 empresas da Bolsa de Lisboa.


Torna-se claro que a CMVM não gosta da analista e principalmente não gosta do facto de a mesma analista sozinha emitir opinião sobre 14 empresas ao mesmo tempo. A CMVM pelos vistos não sabe mas não tem que gostar da analista, já a minha mãezinha dizia "se não gosta come menos". Quem tem de gostar do trabalho da pessoa em causa são os seus clientes, afinal de contas são eles que lhe pagam e se eles estão contentes com o seu trabalho quem é a CMVM para vir dizer que não podem ler o que a senhora escreve?

Se analisasse apenas 13 empresas já era considero que os recursos humanos estavam alocados em "quantidade suficiente"? E se fossem 10? 7? 5? 2? Não sabemos, apenas o comité de tecnocratas da CMVM poderá responder a essa questão.

Como outro colega perguntou, e muito bem, o que aconteceria se Warren Buffet fosse português? Antes de sequer ter começado a gerir dinheiro dos seus amigos e familiares já a CMVM lhe teria cortado as pernas por andar feito maluco a analisar earnings e dividend yields de meio mundo.

É o que acontece neste país, fruto de uma mentalidade do Estado baby-sitter em que se assume automaticamente que os clientes da Lisbon Brokers são uns anormais incapazes de avaliar a qualidade daquilo que leêm e tem que vir um orgão regulador para se certificar que os seus neurónios não implodem.

Os meus pêsames a quem pensava abrir negócio próprio nesta área.

Disclaimer: Não sou cliente da Lisbon Brokers, não conheço a analista em causa e raramente faço operações sobre acções cotadas no mercado nacional.

8 comentários:

MC disse...

e mais uma medida para a criaçãop de postos de trabalho :P

John Stock Trader disse...

Olá Nuno, apesar de concordar que a CMVM devia era estar ocupada com coisas mais importantes e que provavelmente nem devia opinar sobre estes assuntos.
Gostava de te perguntar se conhecias ou habitualmente lias as notas de research da Lisbon Brokers ou onde as podemos encontrar?

Nuno Branco disse...

Não conhecia porque não ligo muito ao mercado nacional e é a esse mercado que a Lisbon Brokers aparentava dedicar-se.

Alguns membros do Caldeirão são realmente criticos da sua qualidade mas penso que isso é secundário, quem não gosta não compra.

Talvez se procurares no arquivo do Caldeirão encontres alguma análise mais antiga.

Henrique disse...

Parabéns pelo blog, só agora o tive oportunidade de conhecer através do clubinveste, muito bom!

Sobre o tema em discussão sou um pouco mais céptico, concordo totalmente com a actuação da CMVM neste caso especifico.

Na minha opinião a Lisbon Brokers não podia sequer ser considerada um departamento de research, muito do seu trabalho era normalmente "encomendado", por alguma razão publicavam notas por exemplo sobre a Reditus ou outras small caps sem qualquer base de análise concreta ou visitas à empresa. Raramente os vi publicar um SELL, era sempre tudo BUY, e a nível de estimativas quase sempre a destoar pelo exagero e fora dos ranges das conceituadas casas de research, por alguma razão estimativas que nunca bateram com "actual numbers".

Acho que existe aqui alguma confusão quando se verifica o trabalho da CMVM neste contexto, lembrem-se que uma casa que emite researchs é muito diferente de um analista independente ou de um forense ou bloguista que publica análises na internet sem qualquer responsabilidade inerente, nesses casos obviamente que não concordaria com actuações desse genero por parte da CMVM.

Os researchs publicados pelas casas de investimento entram directamente para o stream internacional de "estimates" e contabilizam a "poll" com que depois milhares de profissionais se baseiam para trabalhar e actuar, por alguma razão há poucas casas credenciadas para tal, e por mesmo assim haver uma certa leveza é que observamos o estoiro em 2007/2008, exactamente por não se controlar quem "dita" os números e pelos números estarem todos mal analisados.

Reparem por exemplo no caso da Reditus, só existe uma casa de investimento a cobrir esta micro empresa de 64 milhões de euros de capitalização, e essa casa era a Lisbon Brokers, para a qual para variar a analista de serviço Sara Amaral, que ao mesmo tempo cobre mais 13 empresas sem uma equipa de apoio. Este trabalho de research envolve entre outras coisas, estudo aprofundado da empresa, visitas regulares e entrevistas aos quadros da empresa, acompanhamento dos concorrentes da empresa, do sector, da situação macro-económica dos mercados em que a empresa actua, etc, etc, etc. Vamos ser coerentes, 1 pessoa não consegue fazer research fidedigno de 14 empresas, por exemplo a Sara analisava também a Mota-Engil, quantas viagens é que fez a Angola para avaliar os seus negócios? obviamente que nenhuma, mas será que alguém na Lisbon Brokers fez isso para fornecer dados à Sara? e sobre a Galp, será que foi alguém da Lisbon Brokers ao Brasil investigar os desenvolvimentos dos negócios ou confiou no que vem nos Jornais ou noutros departamentos de research que fizeram o trabalho de casa?

Um departamento de research como deve ser, por exemplo como a JP Morgan tem equipas em campo a entrevistar pessoas nas empresas, a viajar para os 7 cantos do mundo em busca de informação para depois "artilharem" os seus analistas para fazerem estimativas e análises legitimas e fidedignas.

O problema aqui não é a Sara Amaral, mas sim a Lisbon Brokers, a Sara até podia cobrir muito mais do que 14 empresas se tivesse uma equipa de apoio, no entanto todo o departamento de research da Lisbon Brokers era por si só a Sara Amaral.

saudações bolsistas!

Nuno Branco disse...

Eu confesso a minha ignorância em relação às notas de research porque não é serviço que eu use (as ideias fundamentais tiro-as da minha cabeça, o resto vou pela análise técnica).

Mas o que é que impede quem segue a análise fundamental e as ditas notas de research de ignorar a Lisbon Brokers?

Henrique disse...

Caro Nuno

É necessário entender-se bem a cadeia de informação desta area especifica para se entender realmente as consequências da não actuação da CMVM.

Pode-se ignorar a leitura das notas de research deles, mas não é possivel de ignorar as estimativas por eles emitidas, porque a partir do momento em que são uma casa de research certificada, as estimativas deles (parte de cada nota de research) entram no stream e passam automaticamente a ser tidas em conta quando se calcula a poll de estimativas.
Exemplo, a Lisbon Brokers cobre a Mota-Engil, assim como mais 6 casas de research, ou seja, quando se diz que o EPS estimado para 2009 da Mota é de 0.215€ essa informação é a média dessas 7 estimativas.
Este valor é difundido pela bloomberg, pela reuters e por dezenas de outros serviços, que por e simplesmente passam para a base de dados todas as estimativas de todas as casas de research credenciadas.
Neste exemplo, a estimativa deles até está diluida porque são 7 casas a cobrir a Mota, mas por exemplo na Reditus são só eles e noutros exemplos são eles e mais outra casa qualquer.

O impacto de teres organismos "mal" credenciados a emitir estimativas é gravissimo, porque depois os profissionais olham muitas vezes apenas para estes numeros e não estao a ler as notas de research ou a investigar quem é o researcher, tal seria complicado especialmente se fores estrangeiro a analisar um papel noutro mercado.

Dai a importancia da CMVM garantir, que os researchs feitos em Portugal tem qualidade suficiente para andarem no "main stream".

Penso sinceramente que não se trata de censura ou de excesso de controle de informação, eles não estão a impedir um individuo de emitir a sua opinião, estão apenas a "descertificar" uma instituição de emitir researchs oficiais por a mesma não os fazer nem correctamente nem ter meios técnicos e humanos para os fazer, ou seja, por não estar habilitada e com o objectivo de manter a qualidade do research nacional.

Da mesma maneira que não é qualquer entidade que pode ser um Banco, ou uma Seguradora, ou um Hospital, também não me parece que possa ser qualquer entidade a ser uma casa de Research certificada.

saudações bolsistas!

Nuno Branco disse...

A fazer valer pela tua explicação parece-me que a CMVM criou um problema a si própria ao chamar a si a responsabilidade de definir quem deve estar certificado ou não a emitir as ditas notas de research.

Pergunto eu se não seria mais simples deixar este processo ao mercado como as agências de rating nos EUA em que cada agência de rating escolheria quais eram as casas de research que entrariam para as suas médias ou não e cada investidor seguiria a agência que desejava ou até várias.

Ninguém nesse caso os poderia acusar de terem pesos e medidas arbitrários (como de facto me parece que está a acontecer aqui, se a analista em causa emitisse opinião apenas sobre uma empresa se calhar a CMVM não questionava nada sobre os seus métodos ou qualidades) uma vez que quem não estivesse contente poderia montar a sua própria agência.

Sendo uma agência governamental tem de facto o "queijo e a faca na mão" sobre quem pode ou não pode emitir opinião. Tudo evitável se o Estado não chamasse a si este papel e há outros modelos em que de facto não o faz.

Mesmo em relação aos bancos sou adepto do "Free Banking" e as regulações existentes, como se pode ver bem pela crise actual, não ajudam ninguém - muito menos o contribuinte.

Henrique disse...

Nuno, a CMVM não criou um problema a si próprio, a CMVM tal como a SEC ou outros organismos reguladores (dai o nome) foram criadas pelos governos para regular, e isto é um assunto que tem/deve ser regulado pois é muito mais abrangente do que possa parecer. Se há ou havia alguma problema, este não foi criado, quando muito está é a ser resolvido, porque medidas destas são comuns lá fora, e por cá é a primeira vez que vejo (e ainda bem) a acontecer... aliás, nem sei como deixaram a Lisbon Brokers trabalhar naqueles moldes durante tanto tempo.

Repara que foi a CMVM que em primeiro lugar certificou a Lisbon Brokers para emitir notas de research há uns anos atrás, e agora depois de concluir que a Lisbon Brokers já não estava habilitada para tal foi novamente a CMVM que lhe tirou o certificado.

Não vejo nada demais nisto, é meramente a mesma coisa quando a ASAE fecha um restaurante porque tem baratas na cozinha.
Não me parece correcto que sejam as pessoas, que vão aos restaurantes que tem de averiguar se há baratas na cozinho, gosto de saber que há alguém ou algum ordem competente empenhado em fazer essa investigação por mim.

O que se está a falar aqui é de instituições certificadas pela CMVM e nada mais. Estas certificações são importantes, o mundo é grande demais para "todos" controlarem "tudo", nem estamos a falar do mercado, mas sim de um serviço especifico que tem de ser bem efectuado por quem supostamente se propoe a fornece-lo.
Eu por exemplo, quando leio um research ou mais simples do que isso, quando vejo uma poll de estimativas, gosto de saber que essa poll é feita por estimativas realmente estudadas por departamentos competentes, não quero sequer ter de pensar que essas poll está a ser distorcida com umas estimativas emitidas pelo Sr. Zé do Talho que agora emite Researchs. Desculpa-me a força de expressão :)

Há serviços que compilam polls de estimates que eles próprios tem os seus critérios, e se não gostarem de uma casa de research nem os contabilizam nas suas polls.

Se queres que te diga, até acho que tenha sido o caso aqui, ou seja, a Lisbon Brokers começou a ser ignorada em algumas polls, e só depois a CMVM "acordou" para o caso.

Quanto aos métodos arbitrários, não concordo, não os conheço exactamente, mas neste caso são demasiado evidentes para se questionar sequer minimamente que tenham sido mal aplicados.
Já para não falar que nas Notas de Research da Lisbon Brokers não faziam traking das suas ultimas recomendações, o que é no minimo pouco sério...
O departamento de research da Lisbon Brokers era composto por apenas 1 pessoa (Sara Amaral), ela sozinha cobria 14 empresas em 5 ou 6 sectores diferentes e em Areas Geográficas tão vastas como 4 Continentes.
A Lisbon Brokers não tinha um departamento de apoio ou de processamento de informação nem de investigação especializados em determinados sectores ou areas geograficas, nada disso, apenas a Sara.
Se a Sara trabalhasse na JP Morgan, até poderia cobrir 20 empresas, possivelmente no mesmo sector, mas teria o backup de uma equipa especializada a dar-lhe material de apoio, tal como colegas a dividir tarefas com ela.

Não é possivel fazer Research Fundamental institucional profissional nesses moldes, em que uma pessoa apenas lida com tantos sectores e areas geograficas diferentes, analisa simultaneamente big caps e small caps, quando é suposto haver departamentos internos especializados. É suposto visitar empresas, recolher dados no terreno, viajar, etc, etc.
Não se trata de Análise Técnica, onde podes facilmente analisar 14 gráficos e muitos mais.

A CMVM não tem a faca e o queijo na mão sobre quem pode ou não emitir opinião, longe disso, e a internet é um exemplo, tal como os Jornais.
Eles tem apenas a faca e o queijo na mão sobre quem pode emitir opinião certificada por eles, o que é muito diferente, e são essas opiniões certificadas que entram no "pipe" global de informação financeira.

saudações